(Este é um conto sobre violência doméstica com um toque de realismo mágico. Lê-se em 2 horas.)
I
Era isto em setembro. Os dias vinham já encurtados, pois, o sol era levado para trás dos montes mais cedo. Naquela altura, até o último raio de sol, havia trabalho debaixo das latadas de vinha — o afã do tempo das vindimas.
Já sem o vigor da manhã, os rapagões vinham encher os cestos de vime uma vez mais. A coluna vergada pelo peso, parecia não se endireitar. O ar sabia a terra, a uva madura e a suor. Vieram dar com o grupo da apanha a cantar, toldados pela ramagem da vinha. De braços erguidos ao céu, mas de olhos postos no cacho de uvas, Josefina e Joana tinham iniciado aquela cantiga na esperança de que esta amansasse o cansaço do dia. Os seus companheiros depressa tinham-se lhes juntado na cantiga e na esperança.
Em toda a freguesia do Estreito, a terra do vinho na Ilha da Madeira, não existiam moças mais gaiteiras do que aquelas irmãs. Corria-lhes no sangue a mesma graciosidade de gestos e a mesma doçura de voz, que mantinham mesmo na dureza daqueles dias. Josefina, a primogénita, mais alta e robusta do que a irmã, colhia os cachos de uvas inacessíveis a Joana, deixando-lhe os mais baixos, numa parceria silenciosa, aperfeiçoada ao longo do tempo.
Toda a vinha avistada dali pertencia à família destas meninas – a família Correia. Era uma terra de morgadio que fora correndo de pais para filhos varões até chegar ao pai das raparigas, o Sr. Rui Correia. O velho viúvo habitava, com aquelas duas filhas, um solar de pedra tão antigo quanto os seus antepassados. Era uma casa de telha com dois pisos, virada a nascente, metida no cimo daquela extensa fazenda.
A noite estava quase erguida quando a voz do velho ecoou monte abaixo:
— Josefina, Joana, venham!
Por aquela via, todos compreenderam que o trabalho daquele dia tinha chegado ao fim. As raparigas subiram ao solar com o passo dos corpos temperados pelo trabalho árduo. E ainda havia a ceia para preparar. Fizeram-no o mais rápido possível. Contudo, o pai achou a demora grande. Suspeitava que tinham ficado à conversa com os rapazes, tendo-as recebido em casa com uma zanga. Perante isto, as moças esforçaram-se por encontrar uma outra força — a da resignação. Puseram-se a descascar semilhas, pimpinelas e batatas. Na panela de ferro, juntaram um pedaço de carne salgada a estes legumes, o que fez soltar respingos de água enfurecidos pelo fogo. Não tardou até terem tudo pronto, pelo que, quando acabaram de cear, era ainda cedo.
— Vou prá casa do Fernando da Enxerga — informou-as o pai.
Logo, retumbou a porta.
Com isto a noite tornou-se pouco auspiciosa. Após estas noitadas em casa do seu amigo, aonde o vinho não escasseava, as moças titubeavam à volta das palavras, dos passos e dos gestos, uma vez que o álcool instigava a cólera do pai. Por vezes, aquilo que o atiçava era o partir de um prato, resultando numa bofetada que lançava as filhas cozinha adentro; outras vezes, uma desobediência grosseira passava com o temor de um afago nos cabelos e um «Para a próxima vais te comportar bem, não vais? Isso mesmo».
A porta ainda parecia tremer contra o batente quando três pancadas fizeram Josefina e Joana pular.
— Quem será a estas horas?
— Quem é?
— É a Filomena, filha da Senhora Luciana — anunciou, num tom urgente, a rapariga por detrás da porta.
Josefina apressou-se a abri-la.
— Filomena, o que se passa?
— Vi o vosso pai sair. A minha mãe está no seu leito de mor… — a voz quebrou e lágrimas soltaram-se-lhe dos olhos.
«Oh, céus! Que notícia se abateu sobre nós», pensou Joana, sem o conseguir exprimir.
A senhora Luciana tinha sido a ama das meninas. Um parto fatídico privara-as da mãe e de um irmão desde muito cedo. Portanto, as duas moças tinham sido entregues ao seu cuidado. Ela tomara conta delas como se tivessem crescido no seu próprio útero: escovara cada fio de ouro da cabeleira ondulada de Joana, testemunhara como ela não adormecia sem dar a mão à irmã; conhecia as profundezas dos olhos de carvão de Josefina e o seu hábito de namoriscar um livro aqui ou ali. No que dizia respeito às meninas, sentiam as suas vidas intrinsecamente ligadas à da sua protetora — um cordão umbilical que nunca fora cortado. Para grande angústia das três, o pai tinha-a despedido uns anos antes, sem nunca se ter justificado, e proibiu-as de se verem. A partir desse momento, os seus encontros tinham sido sempre secretos.
— Venham, por favor, ela quer ver-vos. Diz que não morre sem vos falar — acrescentou Filomena por entre lágrimas e soluços.
Não havia sinal de hesitação na voz de Josefina ao responder:
— Vamos, não há tempo a perder.
As duas irmãs pegaram nos lenços e nos xailes e, assim, se puseram a caminho as três raparigas.
Já não havia lembrança do dia, pois a noite tinha-se levantado em pleno. Ouvia-se perto o ocasional tilintar de pratos e, de longe, vinham brados de homens e latidos de cães. Não se avistava vivalma. O caminho até à casa da senhora Luciana nem era longo, nem era difícil: atravessaram a Estrada do Calvário e meteram-se na Vereda da Ferreirinha. Deram uns cem passos e encontraram uma casota de palha em telhado de duas águas, com canteiros fartos de flores, ladeando a única porta da casa.
Filomena entrou, dirigindo-as a um quarto singelo, onde Josefina e Joana encontraram a senhora Luciana — a sua mãe pelo coração e afetos. Sobre uma mesinha de cabeceira, encostada a um canto, um candeeiro a petróleo irradiava uma luz trémula. A penumbra adensava-se, à medida que a porta ia fechando. Até que se ouviu um estalido. Filomena retirara-se. Ajoelharam-se ao lado da cama, mas a mulher não deu sinal de reconhecer a sua presença. Estava muito quieta. A tez, coberta de uma fina camada de suor, luzia sob a chama irrequieta, criando sombras em ângulos pouco naturais. A sua respiração era irregular: longas pausas interrompidas por inspirações atabalhoadas. Joana teve de pousar a sua mão sobre a dela, para que os seus olhos cor de amêndoa se mostrassem.
— Minhas queridas.
— Senhora Luciana, viemos assim que a sua filha nos chamou — declarou Joana, com uma tristeza na voz própria de quem reconhece um moribundo numa pessoa amada.
— O vosso pai… — uma centelha de preocupação avivou-lhe o espírito.
— Está na casa do Fernando da Enxerga, não se preocupe. Viemos sem ele saber — assegurou Josefina.
— Minhas queridas, há uma coisa que tenho de vos dizer. Mas nã me resta muito tempo — admitiu a ama.
As palavras saíam-lhe de forma entrecortada, terminando as frases ofegante.
As irmãs não queriam ser causa de tamanha aflição. No entanto, algo pesava na alma daquela mulher. Entenderam que não a poderiam demover, por isso, esperaram que continuasse.
— Primeiro, perdoem-m’a cobardia. Devia ter contado mai’cedo. Perdoem-me.
— O que há a perdoar? Você só nos trouxe a certeza de sermos amadas — declarou Joana ao aproximar a mão da senhora dos seus lábios.
A última esboçou um sorriso.
— Todos estes anos, tive muito medo de vosso pai. Mas agora já nã tenho. Estou na minh’última hora. Nã quero ser egoísta ao contar tudo isto só porque preciso de aliviar o meu espírito. Ainda por cima, agora, nã vos posso proteger. O qu’eu quero é dar-vos a verdade, para que possam escolher: enterrá-la ou alumiá-la — voltou o tronco para cima, como se à procura de ar.
As duas irmãs entreolharam-se. Não imaginavam que revelação pudesse assaz apoquentar aquela mulher. «Poderia ela ter ficado senil, ali, tão perto do fim?», questionou-se Josefina.
A ama colocou-se de lado novamente e disse:
— Eu comecei a trabalhar no Solar quando a vossa mãe estava d’esperanças, que Deus a tenha! —escorreu-lhe uma lágrima pelo canto do olho.
— Vocemessias têm de perceber, valha-me Deus! Eu nã sabia nada da vida e era muito pobre. O vosso pai ameaçou-me, ofereceu-me dinheiro e fui fraca.
Agora, uma torrente de lágrimas lavava-lhe a cara. Fungou e tossiu.
Joana, comovida por aquele esforço, tentou dissuadi-la de prosseguir:
— Senhora Luciana, está-nos a deixar preocupadas. Não se esforce por nós. Seja o que for, nós perdoamos.
— Não! Não! Deixem-me continuar!
As moças não insistiram.
— O vosso pai achava qu’o filho nã era dele. Ouvia o cabrão, que Deus me perdoe, bater nela! Até lhe dava bofetadas e empurrões à minha frente. Ainda ouço os gritos dela aqui dentro. Ó Deus! Como me arrependo de nã ter feito nada. Quem sabe? Ela podia ainda estar cá, pra vos proteger. Mas qu’ia eu fazer, Senhor? Como diz o povo: «Entre marido e mulher, nã se mete a colher» e as coisas são assim — proferiu ela, com fervor e penitência.
Era como se a alma tivesse deixado o corpo e estivesse agora às portas do purgatório, expiando os pecados e suplicando a entrada no Reino dos Céus.
Inspirou por diversas vezes e, após alguns segundos, prosseguiu:
— Um dia, quando a vossa mãe estava quase a ter o bebé, o canalha do vosso pai chegou a casa muito zangado. Ela disse-lhe qualquer coisa sem importância e, olha, deu-lhe cá uma ira. Só ouvi o som duma estalada e dum pontapé. A vossa mãe rolou escadas abaixo. Deve ter batido mal em algum sítio, porque ao chegar ao fundo, ela já nã respirava.
A senhora soltou um gemido e sussurrou:
— Começou a sair sangue por baixo. Ó Pai qu’estás no Céu, perdoai-me!
O olhar encheu-se de uma mágoa distante, arraigada e indelével. As lágrimas secaram-se na sua face. A seu lado, Josefina estava petrificada, enquanto decorria no seu rosto uma permuta entre escuridão e luz, criada pelo candeeiro. Joana curvara-se sobre si mesma, pousando, na cama, os cotovelos e a cabeça.
— Minhas queridas, minhas filhas, nã dizem nada?
Um silêncio aprofundou-se entre elas.
— Perdoem-me. Ainda há mais pra vos contar — confessou a senhora.
— Chega! Basta! Não posso ouvir mais — suplicou Joana, erguendo a cabeça.
— Não, por favor, continue — incitou a outra irmã. — Eu quero saber tudo.
Num movimento quase reptiliano do pescoço, Joana lançou-lhe um olhar angustiado.
— Se não queres ouvir, espera lá fora — sugeriu Josefina no sussurro mais delicado que conseguiu. — Eu preciso de ouvir o resto.
— Por favor, Joana, fique. Rogo-lhe — implorou a mulher, apertando-lhe a mão.
A moça olhou-a até que uma névoa lhe turvou a visão. Não se mexeu, pelo que a sua protetora sentiu-se compelida a avançar:
— Eu agarrei-m’à vossa mãe e gritei. Vossemecias sabem o quanto eu gostava dela. Ela ensinou-me tud’o que sei. O vosso pai obrigou-m’a largá-la e a me levantar. Disse-me qu’eu tinha de ajudá-lo, senão ele desfazia-m’ali mesmo. Vocemessias nã imaginam a crueldade.
Fez uma longa pausa, pois, respirava cada vez com mais dificuldade.
— Ele inventou uma história: disse a toda a gente qu’ela tinha entrado para ter bebé e começou a sangrar muito. E qu’eu tinha ido avisá-lo à fazenda. Era preciso uma parteira, mas quando voltámos a casa era tarde demais. Ela já tinha morrido. Foi esta a história qu’ele fez correr.
As duas irmãs encontravam-se divididas entre a perplexidade e o horror. «Como poderia aquele segredo ter durado tanto tempo? Como é que ela aceitara ser cúmplice daquilo tudo?», eram estes os pensamentos das raparigas.
A senhora Luciana continuou:
— Os anos foram passando e convenci-me que tinha sido melhor assim, porque, se eu tivesse confessado, em vez de perderem um dos pais, tinham perdido os dois. Mas via como ele vos controlava e batia. O cabrão! Então, a certa altura, apercebi-me: teriam sido felizes sem aquele pai. A partir daí, fui me tornando cada vez mais aguerrida. Ameacei-o e ele ameaçou-me de volta. Até que me jogou fora da vossa casa. Depois disso, longe da vista, longe do coração. Oh, perdoem-me, perdoem-me. Pensei para mim: «Elas vão sair daquela casa nã tarda, vão casar e abandoná-lo, como ele bem merece» Esses dias felizes nã chegaram ainda.
Dito isto, fechou os olhos, estafada e aliviada. Durante vários segundos, não respirou, pelo que Josefina correu a chamar o resto da família. Eles rodearam a moribunda. Era o soçobrar daquela mulher, o último átimo de vida.
II
Há, em todos nós, por mais apagado que tenha sido pelo estudo das ciências, um resto de misticismo. E, basta às vezes, o breu da noite, o uivo longínquo dos cães, a bruma inusitada ou a silhueta de um carvalho despido, para que esses resquícios se inflamem e consumam a mente do matemático mais estoico. A Josefina, o que a lançou nessa tirania, foi um vulto coberto de mantos, uma figura curvada, que atravessava a Estrada do Calvário a uma velocidade sobrenatural — tão veloz que o som de passos não lhe podia pertencer.
— O que foi? — indagou Joana, ao chocar contra a irmã, que tinha gelado à sua frente e olhava a distância.
— Tu não viste?
— Viste o quê?
— Nada — respondeu Josefina, abanando a cabeça. — Anda. Temos de nos despachar.
Logo, se pôs a caminho no seu passo habitual.
— Espera! Vamos falar — disse a irmã mais nova, tentando acompanhá-la.
— Não.
— Porque não? As coisas que a senhora Luciana nos disse…
— Agora não!
Embora Joana desejasse conhecer por que labirintos os pensamentos da irmã se tinham metido, também reconhecia que era imperativo regressarem a casa. Não havia como saber o que as aguardava no Solar. Ao abrirem o portão de ferro, nenhuma luz tímida saía do cozinholo ou da casa principal. Um suor frio escorreu pelas costas de Joana e Josefina pensou: «Graças a Deus! Precisamos de paz para pensar» Logo que possível, meteram-se na cama. Aí, ao lado de sua irmã, Josefina espiava a escuridão do quarto, afligida por um turbilhão de preocupações — a mais concreta: a incerteza de como viver sob o jugo daquela verdade. Desde já, a alma contraía-se e a inteligência alterava-se. Tal como era seu jeito, levou a mão ao peito à procura do seu amuleto, o agnus dei, para o fazer abrir e fechar. Apercebeu-se de que estava aberto e sobressaltou-se.
O agnus dei era uma medalha em forma de coração, que guardava no seu interior as imagens de um cordeiro e de uma cruz, símbolos do sacrifício de Jesus Cristo. Josefina usava-o contra o peito, desde a adolescência. Pertencera a sua mãe e, portanto, tinha-o como lembrança preciosa. No entanto, este objeto não era apenas uma medalha. Era também um amuleto. Dizia a superstição que se abria para defender de perigos sobrenaturais ou para atrair bênçãos divinas. «Ó Deus!», invocou a rapariga.
A voz da sua irmã interrompeu o seu tumulto.
— Mana, não consigo parar de pensar no que a senhora Luciana nos disse. O que nos havia de cair em cima? — o tom deixava trair um desespero mal suprimido.
Joana trouxe-a para junto dela e envolveu-a num abraço.
— Amanhã falamos sobre isso. Agora não consigo. Não sei o que pensar, o que dizer. Tenho a cabeça à roda.
— Prometes?
— Prometo — garantiu Josefina, plantando um beijo no topo da cabeça da irmã. — Vamos tentar dormir. Amanhã tudo será mais claro.
— Sim, tens razão.
Caíram as duas num sono leve ou, antes, num estado de penumbra entre a excitabilidade e a dormência; por vezes inclinando-se para o primeiro; outras, para o segundo. O tinir de chaves fê-las emergir. Era o pai. Ouviram uns grunhidos de bêbado e um estrondo: a porta da casa fechou-se.
— Onde está a puta da minha filha?
Segundos depois o homem irrompe pelo quarto das raparigas, com um candeeiro de petróleo numa mão e uma corda na outra. Tudo o que as irmãs conseguem ver é um peito estruturado a descer e a subir, um fácies enrugado e uma boca a expelir saliva, antes da figura caminhar na sua direção e desferir um golpe de corda dobrada que lhes apanha as pernas. Elas gritam uma primeira vez e Josefina, no meio daquela confusão, pergunta:
— Meu pai, porque nos bate?
— A tua irmã é uma puta! — condena o pai, levantando os braços para desferir o segundo golpe.
Este atinge o braço de Joana, erguido em defesa.
Ela grita.
Josefina consegue levantar-se e tenta agarrar a corda, mas debalde.
— Quem lhes dá o pão, dá-lhes o ensino. Depois disto, ah, vais andar mansa — ao proferir esta ameaça, dá uma terceira cordoada na filha mais nova, apanhando-lhe o flanco esquerdo.
Ela geme de dor e debruça-se na cama.
— Pai, pai, pare! — Josefina tenta chamar o pai à razão.
— Eu não fiz nada — acrescenta Joana.
Uma nova onda de fúria enche-o, porque entende aquilo como mais uma mentira. Golpeia a rapariga, uma e outra vez, enquanto a insulta:
— Sua porca! Se pensas que vais continuar a escabritar com aquele borracheiro, estás enganada.
Por seu lado, Josefina tenta conter o pai, mas ele está tomado por uma força diabólica. Por entre os berros e choro aflitos da irmã, exclama:
— Pai, pai! Pare, pare, por favor!
Com um empurrão feroz e uma cotovelada no olho direito, o pai desembaraça-se dela, lançando-a contra a parede. Sob aquela fraca luz e com uma das vistas tapada, Josefina sente uns olhos demoníacos cravarem-se nela.
— E tu foste cúmplice.
O pai atinge-a com a corda nas costas e o som que produz corta o ar, misturando-se com um grito agudo.
— Se acham que eu não sei que foram ver a Luciana esta noite, estão muito enganadas. Vocês pensaram que eu não ia descobrir? Suas cabras desobedientes!
Umas horas antes, enquanto as meninas aprendiam os segredos do pai, o próprio tomava conhecimento, pela boca do Fernando da Enxerga, da relação de Joana com um borracheiro. Ao que parecia, o caso remontava a um ano, encoberto e facilitado pela irmã mais velha. A família do rapaz era tudo menos aconselhável: uma gente maltrapilha, com um rancho de filhos, que dormia infundilhada numa casa de palha com dois quartos — segundo as palavras do seu amigo. Imbuído pelo vinho e escárnio, levantou-se para regressar a casa e corrigir a filha, quando o padre Teotónio entrou pela porta e anunciou:
— Meus caros, necessito de um copo.
O padre sentou-se, ocupando dois lugares da mesa, enquanto a criada correu ao armário para providenciar o copo. O Fernando da Enxerga encheu-o de vinho, o padre sorveu o conteúdo de uma golada só e continuou:
— A Extrema-Unção é um sacramento que me deixa agoniado. Logo que aquela moça, a Filomena, filha da Luciana Mendes, me foi chamar, porque a mãe estava a morrer, o meu estômago deu um nó e ainda não se desfez. Olhe — dirigiu-se ele ao senhor Correia —, vi as suas meninas entrarem na casa dela mesmo depois de a ter deixado. Que bonito não se terem esquecido daquela pobre mulher.
Uma onda de medo profundo varreu o espírito do senhor Rui Correia. Os seus joelhos cederam uns milímetros. A possibilidade do seu segredo ter sido revelado e de ter perdido o poder sobre as filhas apavoraram-no. A este sentimento juntou-se a raiva pelo desrespeito de Joana e a incredulidade perante a subversão que as duas filhas demonstravam. Estas revelações eram demasiado tenebrosas: afinal, ele não as controlava em absoluto; ao fim ao cabo, elas desabrochavam, mesmo apertadas na sua garra.
Eram como flores que nascem na berma das levadas ou nas folgas dos caminhos empedrados: tão vulneráveis à pisadura, mas, ainda assim, capazes de florescer numa diminuta fenda no chão sob a bênção da água e a imensidão do céu.
O quanto ele queria esmagá-las! Era essa a sua única determinação quando entrou no solar. O diabo que ele edificara fora de casa queria ser destilado sobre as raparigas, arranhava-lhe as entranhas de tanto querer sair.
— Pai, ela está a morrer. Ela está a morrer.
Sons de súplica. Sons de corda contra carne. É o que se ouve agora no quarto das moças. Nada demove o monstro: bate em Josefina com golpes duros, num esforço que o deixa a pingar.
Embora envolvida pela dor da irmã, Joana tenta pensar em algo que o faça parar: «O segredo que a Senhora Luciana nos contou! Abismado ele vai ficar, mas pode ter o efeito contrário e ele ficar ainda mais enraivecido» Desiste da ideia, lançando-se sobre as costas do homem. A surpresa e o efeito do álcool jogam a favor dela, pelo que consegue derrubá-lo. O soalho estremece com o impacto dos dois no chão.
As duas irmãs aproveitam o momento para tentar domar o monstro. Joana, agarrada às costas do pai, tenta abarcá-lo com o seu corpo; Josefina, de pé, toma a corda nas mãos e puxa com ímpeto enquanto ele grunhe e se agita, como um animal preso. Depressa, um desses movimentos transforma-se num puxão que incendeia as mãos de Josefina e a faz largar o malfadado instrumento. Ele aproveita para rolar sobre si mesmo, desemaranhando-se de Joana. Assim, ela é apanhada pela ira do pai. O diabo está-lhe no corpo. Soltam-se gritos, gritos de desamparo, desespero e desgraça.
— Pai, eu estou grávida. Por favor, pare!
O velho para. As rugas à volta dos seus olhos tornam-se mais profundas e as pupilas dilatam-se, engolindo a íris até só existir um ponto negro. Por fim, a quimera dentro dele encontra o caminho e emerge.
— Eu mato-te, eu mato-te! E ao borracheiro também!
Percecionando esta transfiguração, uma ideia atroz revela-se a Josefina: «Não há esperança de fazê-lo parar, com palavras ou com a força das nossas mãos. Ele vai matá-la e ao filho que carrega, tal como fez à nossa mãe e ao nosso irmão» Domada por esta epifania, Josefina deixa o quarto. Joana vê isto em plena confusão, sem conseguir articular, pois, agora, só saem da sua boca gemidos e laivos de sangue em sincronia com as vergastadas de corda. O pai bate nela, como se batesse no chão. Da divisão ao lado, vem o tilintar de utensílios.
Numa fração de segundo, tudo muda. Josefina entra de rompante no quarto, empunhando a faca aguçada que o pai usa nas matanças dos porcos. O homem não se apercebe. Quando ela o alcança, os seus braços estão em baixo, a corda a chocar contra Joana, o que permite a Josefina enterrar a faca entre omoplata e a coluna vertebral, por entre as costelas, de tal modo que atinge o coração num golpe fatal. O movimento que o homem faz a seguir é semelhante ao de uma árvore frondosa que tomba à última machadada de um lenhador: primeiro, verga-se; de seguida, descai desamparada e, por último, embate contra o chão, produzindo um estrondo.
Joana ergue o tronco para encontrar o velho caído à sua frente, de olhos abertos, sem brilho. Depois, levanta a cabeça e apercebe-se que a irmã, de pé, com os braços ao longo do corpo, treme. Na sua fronte está plasmada toda a amálgama de sentimentos que perpassa pelo seu íntimo. A constatação da inexorabilidade daquele ato subjuga Josefina ao chão. Caindo de joelhos, nota que o sangue do pai escorre do ponto onde a faca foi cravada, formando uma pequena poça. Aquela visão catapulta-a para um remoinho implacável de pensamentos. É possível que tenham passado mais do que uns meros minutos até a irmã a sacudir, devolvendo-a ao presente.
A expressão de Joana albergava a pergunta premente: «E agora o que fazemos?» Num movimento fluido, Josefina retirou a lâmina do corpo e, inadvertidamente, pousou a mão livre sobre a poça de sangue. Uma ânsia de vómito assolou-a. Quando se recompôs, deu conta que se tinha limpado no vestido de noite branco, deixando aí uma marca — uma mão de sangue.
— Temos de dizer a alguém — afirmou Joana. — Foi em nossa defesa. Ele ia-nos matar se não tivesses…
— A quem vamos contar? Quem nos ajudará?
— Falamos com o Henrique. Ele ajuda-nos. Tenho a certeza.
— Tens mesmo?
Joana fez uma pausa. Podia ela estar segura de que o seu amado iria compactuar com um assassinato?
— Isto é demasiado grave — continuou Josefina — A nossa querida Luciana, a única pessoa em quem podíamos confiar, está morta. Só nos temos a nós próprias. Toda a gente sabia que o nosso pai nos batia e nunca ninguém veio em nosso auxílio. Não vês o que anda por aí? É normal, é um direito dos homens baterem nas mulheres, seja filha, seja esposa. Se eu não tivesse agido, ele ia-nos matar, não tenho dúvidas. Mas como o vamos provar perante os homens da justiça e o povo? Vão-nos injuriar, porque foste íntima de um homem com quem não és casada e eu encobri-te. Vão-nos prender, porque matei o nosso pai e tu foste cúmplice. Não posso permitir que o teu filho nasça na desgraça, numa prisão, e viva sem a sua mãe por causa de um monstro.
A revelação da senhora Luciana esmagara um sentimento que lhes tinha acalentado, durante tantos anos, a ideia de um futuro menos vil — a esperança de uma mudança de comportamento por parte do pai, quer pela intervenção divina, quer pela passagem do tempo. Em vão, esperaram que a idade vergasse aquelas fúrias e lhe endireitasse a alma. Como essa inocência tinha sido destruída, dando lugar a algo sórdido e abominável.
— Tens razão. Eu também não quero isso para o meu filho ou nenhuma de nós. Mas o que é que podemos fazer sozinhas? O que é que vamos dizer às pessoas quando se aperceberem do desaparecimento do pai?
— Temos de pensar.
Após uma pausa, Joana tentou clarificar:
— Então, estamos as duas a assumir que… que vamos esconder o corpo e tentar encobrir as provas, não é?
— Sim, é isso.
Embora ainda não tivesse tomado forma, reprimido pela frieza, tenacidade e inteligência que o plano exigia, era evidente que as suas ações, daí em diante, as levariam para longe dos escrúpulos morais e das leis humanas.
— Então, temos de enterrá-lo aqui perto porque não somos capazes de levá-lo para muito longe e eu tenho dores no corpo todo sobretudo no meu braço direito.
Um vislumbre das cenas de violência anteriores esgueirou-se no consciente de Josefina. Ela envolveu a irmã nos braços e disse:
— Eu sei. Vou cuidar de ti a seguir.
Ao se afastar da irmã, uma ideia pareceu iluminar a sua face.
— Já sei. Os vizinhos foram hoje para a festa da Ponta Delgada. Vão passar lá o fim de semana.
— Estás a pensar em enterrá-lo lá? Mas por que não no nosso terreno, mais perto de casa?
— É verdade que, se descobrirem o corpo lá ou aqui, nós continuamos a ser suspeitas. O Fernando da Enxerga vai testemunhar que viu o pai regressar a casa e os Reizinhos nunca serão suspeitos, porque a essa hora eles já se tinham posto a caminho da festa. Mas não é nisso que estou a pensar. Muita vizinhança tem deitado o bagaço da uva lá.
Um clarão apareceu também na expressão de Joana.
— O bagaço vai fazer com que o corpo apodreça mais depressa.
— Exato. Além disso, não temos de escavar um buraco tão fundo. Podemos tirar alguma terra, metê-lo lá e voltar a pôr o bagaço por cima.
Joana assentiu.
— Temos de ser rápidas! A noite é nossa aliada.
Deram o primeiro passo do plano: esconder a arma do crime, devolvendo-a, depois de limpa, ao seu local habitual. Posto isto, começaram a arrastar o cadáver, deixando um rasto de sangue no soalho.
A transladação para a fazenda do vizinho foi morosa e extenuante. Pegavam no morto, davam uns passos e, pouco depois, voltavam a pousá-lo. Joana estava muito maltratada, embora ainda não se tivesse revelado a verdadeira extensão das suas lesões. O efeito das cordoadas também era notório em Josefina, dados os ocasionais esgares de dor.
Chegadas ao monte de bagaço, cuja silhueta se encimava sobre o solo, mais negra do que a noite, deixaram tombar o corpo no chão. De costas arqueadas e mãos sobre os joelhos, as irmãs arquejavam.
Josefina foi a primeira a recuperar o fôlego. Cambaleou até à loja do solar para trazer consigo uma pá e uma enxada. Ambas puxaram o bagaço, ainda molhado, até encontrarem terra. Depois, a irmã mais velha iniciou a escavação. A poucos centímetros de profundidade, ao cravar da enxada, ouviu-se um som quase metálico que reverberou agudo e curto no ar. As moças trocaram olhares. Joana franziu o sobrolho. O solo pedregoso não permitiria submergir totalmente o morto na terra. No entanto, não lhes restava outra alternativa. Fizeram rolar o cadáver para o buraco pouco profundo.
Quando estavam prestes a cobri-lo de bagaço, Josefina bateu com os olhos no defunto coberto de poeira, imóvel e inexpressivo — um corpo esvaziado de espírito. Um rasgão dilacerou o seu âmago e todo o seu ser foi confrontado com o abismo que se abrira. Ela não caiu. A irmã amparou-a.
III
O silêncio reinava e as estrelas ainda adornavam o firmamento; porém, a luz do dia começava a criar um espectro de cores taciturnas no céu, que iam do azul quase negro até ao branco, passando pelos tons de cinzento. As duas irmãs retrilhavam os seus passos de volta ao Solar, aproveitando aquele primeiro fulgor do dia para esconder lembranças da noite passada.
— Vamos prometer uma à outra que nunca contaremos a ninguém o que se passou? Nem que nos ameacem, nem que nos magoem.
Joana anuiu e acrescentou:
— Nunca ninguém saberá o que aconteceu.
As moças deitaram-se num leito árido. Foram assoladas por uma torrente de pensamentos, sob a forma de circunlóquios: «E se há testemunhas que o viram entrar em casa? Às vezes, o Fernando da Enxerga acompanha-o até aqui. E se começam a suspeitar de nós? Não, não suspeitariam de duas raparigas escanzeladas, que nem conseguem pegar numa saca de semilhas. E se descobrem o corpo aqui tão perto? Vão suspeitar de nós. E se só descobrirem daqui a uns meses quando se for estender o bagaço e o corpo não tiver apodrecido? E se começa a cheirar? Ó Deus, salvai-nos!»
Na manhã do dia seguinte, Josefina, tendo ido à casa do Fernando da Enxerga perguntar se alguém tinha acompanhado o pai até ao Solar, pois, ele não dormira lá naquela noite, recebeu resposta negativa, o que muito a apaziguou. De seguida, dirigiu-se ao Juiz da Paz, o estimado senhor Júlio Freitas para dar parte do desaparecimento do pai. Ele suavizou a situação, argumentando:
— O Senhor Correia deve estar praí num canto, menina. Olhe, talvez debaixo de uma latada de vinha, ainda a ressonar, depois de uma noite bem regada. Não se preocupe.
De regresso ao Solar, Josefina contou as novidades à irmã. Joana declarou que eram excelentes notícias. Contudo, havia algo que a preocupava: notara um corrimento de sangue a sair por baixo. Não sabia o que significava, mas não podia ser bom augúrio para a sua criança. Ambas concordaram que o melhor seria se manter em repouso.
Com o trabalho destinado, pois, a azáfama das vindimas não cessara, Josefina permitiu-se demorar em casa. Primeiro, tomou conta de Joana: esfregou vinagre no seu braço direito, nas suas costas e nas suas pernas. Repetiu estes gestos todos os dias durante uma semana, tal era o negrume. Depois, certificou-se de que não havia gota de sangue no soalho ou vestígios incriminatórios no caminho percorrido até ao monte de bagaço.
Passados dois dias, o Juiz da Paz convocou um grupo de pessoas para iniciar as buscas. Agora, o senhor Júlio Freitas demonstrava uma certa curva na sobrancelha e uma contração dos músculos da boca. Repetiram o trajeto da casa do Fernando da Enxerga até ao Solar, procurando nos poios e, depois, mais longe, nas levadas e no sopé de penhascos. Josefina participou, repelindo as perguntas curiosas dos vizinhos acerca da ausência da irmã com a desculpa de uma gripe que a tinha sujeitado à cama. Durante aquela semana de repouso, Joana restabeleceu forças. O corpo continuava amassado, mas o corrimento parara. Escondeu as nódoas negras o melhor que pôde.
As buscas provaram-se infrutíferas, pelo que o caso foi levado à Polícia de Investigação Criminal. Primeiro, veio um cabo, depois, um chefe de esquadra. Fizeram muitas perguntas às irmãs Correia: «Quando viram o vosso pai pela última vez?», «Como passaram esse dia?», «Porque é que saíram de casa naquela noite?», «Como era a relação com o pai?». Tentaram dar repostas próximas da verdade. A gravidez de Joana permaneceu em segredo. Contudo, os polícias descobriram que ela mantinha uma relação com um borracheiro e que o pai o soubera na noite do seu desaparecimento.
— Sim, é verdade. Estamos apaixonados — foi a resposta pouco inflamada de Joana aos polícias quando voltaram a interrogá-la.
— A menina não achou que isso fosse importante para a Polícia? Porque nos escondeu o caso com o senhor Henrique?
— Não achei que fosse relevante, uma vez que o meu pai não sabia disso — contrapôs Joana, batendo vagarosamente as pestanas.
— Pois aí está o ponto a que queria chegar. Ele não sabia porque não aprovaria que a sua filha casasse com um borracheiro, não é verdade?
— Em parte. A certa altura, íamos contar-lhe porque queremos nos casar.
— Como acha que ele reagiria ao descobrir?
— Não ficaria contente, é verdade.
— Tinha medo dele?
— Bom, ele às vezes dava-nos uma sova quando alguma coisa não lhe agradava. Mas não mais do que outros homens nas redondezas — relativizou Joana.
Ela falava sem trémulo na voz.
Ora, a Polícia dirigiu-se de seguida à casa de Henrique. Ele falou com propriedade; o chefe de esquadra diria que com alguma arrogância, imprópria para um pé rapado. O seu discurso era claro e seguro; o seu alibi, sólido. A família corroborara que Henrique tinha jantado com eles e dormido com os seus três irmãos mais novos, como de costume, na noite do desaparecimento de Rui Correia.
Após os interrogatórios, ao entardecer, os apaixonados encontraram-se debaixo de um loureiro. O tinir dos sinos da igreja afugentou um pombo trocaz que se regalava com as bagas. Aí, recontaram, um ao outro, os acontecimentos daquele dia. Joana foi percebendo que as perguntas dos Polícias a tinham abalado mais do que imaginava.
— Perdoa-me, não queria que estivesses a passar por isto.
— Porque me pedes perdão? Não tens culpa de que o teu pai esteja desaparecido — assegurou o rapaz, acariciando-lhe as maçãs do rosto com o dorso da mão.
Ela baixou os olhos e respondeu:
— Sim.
— O que se passa?
Ainda cabisbaixa, Joana fez rolar uma pedra sobre o seu pé esquerdo. O borracheiro tomou o seu queixo entre o polegar e o indicador, compelindo-a a encará-lo.
— Eu sei que estás preocupada, mas ainda há esperança.
— Sim, tens razão.
Henrique pressentiu uma certa hesitação… e algo mais, inominável. O rapaz fitou-a de novo com uma intensidade que lhe era familiar. Era como se lhe perscrutasse a alma. Joana sentiu-se dividida.
— O que não me estás a contar?
— Nada.
— Eu e tu, nós prometemos que seríamos companheiros em todas as provações da vida, acontecesse o que acontecesse. Deixa-me ajudar-te.
Joana sentiu-se esticada entre duas promessas. A irmã e o amado puxavam em direções diametralmente opostas. A comoção daquele dia e a frieza a que tinha sido obrigada esgotaram a resistência necessária para se opor àquelas forças. Então, quebrou: desatou a chorar. Uma enxurrada desceu sobre as suas bochechas. Henrique manteve-a nos braços até ela enxugar as lágrimas. Quando levantou o queixo para examinar o namorado, encontrou uma imensidão de rugas na sua testa e o seu lábio superior apertado entre os dentes.
Suspirou e rendeu-se. Contou tudo ao borracheiro.
***
A investigação do desaparecimento do senhor Correia continuou. No entanto, não existiam provas concretas que pudessem ligar as suas filhas ao crime, salvo questões circunstanciais. Além disso, aos olhos da Polícia de Investigação Criminal era improvável que duas meninas tão joviais, tão belas e tão frágeis pudessem ter cometido um crime tão hediondo. Por outro lado, a polícia não produziu outros suspeitos ou outras explicações. O que corria na vizinhança é que o homem tinha caído de uma ribanceira abaixo, bêbado como estava, e, mais tarde ou mais cedo, o corpo seria encontrado.
As fases da lua foram mudando até que um tempo de leste se abateu sobre a ilha. Durante duas semanas, um calor pavoroso. Quando a temperatura já começava a mudar e uma brisa corria, trazendo o cheiro doce a pero Domingos, o senhor Reizinho visitou o Solar. As irmãs Correia serviram ao excelente vizinho vinho tratado e bolo de mel. A princípio, a conversa manteve-se entre o preço a que tinham sido pagas as uvas e os estragos do leste nas plantações até o visitante declarar:
— C’o calor destes últimos dias, o bagaço está pronto a ser estendido. Huh! Normalmente, só o fazemos lá para dezembro ou janeiro. Eu cá vos digo, meninas, nunca vi um tempo destes em novembro.
Aquelas palavras foram sentidas pelas moças como um abalo premonitório antes de um grande sismo. Joana remexeu-se sem saber o que fazer às mãos. Após um momento de estupefação, Josefina indagou o senhor Reizinho:
— Então, quando vão estendê-lo? Há muito bagaço este ano. Podemos vos dar uma mão. Nem que seja servir o vinho.
— Vai ser amanhã. Mas nã s’incomodem, meninas. A gente arranja-se.
— Se o vizinho bem se lembra, o meu pai ajudava-vos sempre. Queremos manter a tradição.
Foi uma cartada bem jogada, pois, se havia algo que o senhor Reizinho estimava era manter a tradição. Assim, ele aceitou a oferta e combinaram encontrar-se com os primeiros raios de sol do dia seguinte. O bagaço seria estendido e o destino das irmãs traçado.
Naquela noite, Joana sonhara com um barco à deriva, vergando para a frente e para trás em plena tempestade sem nunca afundar. Sentiu-se nauseada ao acordar. Josefina já não se encontrava a seu lado. De novo, questionou a sua decisão de esconder que Henrique conhecia o seu segredo. «Seja como for, hoje não é o dia ideal para lhe contar», pensou.
A noite também não trouxera a Josefina o descanso prometido. Entre períodos de insónia, sonhara com um vulto negro, aquele que tinha avistado no Calvário. Desta vez, ele não se escapava na escuridão, mas dirigia-se a ela. Mesmo antes de chocarem, a sombra erguia a face e Josefina podia ver uma velha de olhos castanhos penetrantes. Eram-lhe familiares, embora não conseguisse conciliar esse sentimento com uma memória. A estranheza daquele cenário inundou-lhe o espírito. Acordou com o coração a palpitar e as mãos frias e suadas. Levantou-se e preparou o pequeno-almoço.
Ao fecharem a porta do Solar, as irmãs entrelaçaram as mãos. Dirigiram-se à casa do vizinho, onde um grupo de homens já esperava o café no balcão. A senhora Reizinho preparava-o com a sua moça, pelo que se ouvia o tilintar de chávenas misturado com os sons toscos de tachos. Aqueles minutos passaram com o vagar da mudança das marés. As irmãs sentiam eclodir sobre a pele pequenos espasmos musculares, fazendo-as remexer. Por fim, a senhora da casa saiu da cozinha, envergando uma bandeja farta. Voltando o olhar para as raparigas, notou:
— Que se passa, filhas? Parece que estão à espera de um fantasma.
As meninas aproximaram-se dela e serviram-se do chá de erva cidreira. Embora o cheiro fosse divino, soube-lhes a uma água insípida; tão pouco serviu de calmante. Posto isto, insistiram em ajudar os homens encarregues de estender o bagaço. Outros ocupar-se-iam de acartá-lo até aos poios, entre eles, Henrique.
O trabalho principiou — cada um com a sua pá. Camada após camada, a comitiva puxou o bagaço ora em estado líquido ora em estado sólido. Um azedume encheu o ar e os mosquitos rodopiaram à volta deles. A meio da tarefa — era um monte alto — o suor escorreu pela face de Joana. O borracheiro foi lançando, amiúde, olhares reprovadores. No entanto, nunca interferiu. Sabia que nada a deteria. Por seu lado, Josefina também arfava. À medida que o monte se tornava mais esbatido, o medo crescia. «Quando estes homens encontrarem o corpo do pai, o horror abater-se-á sobre eles. Deus, como vamos sobreviver a todas estas provações?», pensava ela.
O ar frio da manhã era um bálsamo, mas o vento não soprava. Uma quietude pairava sobre aquele sítio, como uma inspiração profunda antes de um mergulho. Josefina lembrava-se ao milímetro a que profundidade deveriam encontrar o buraco no chão, onde o corpo jazia. Quando um dos homens varreu a última camada, ela deixou cair a pá.
O que as irmãs encontraram fê-las parar de respirar: nada. Não havia ali vestígios de morto. Nem um cabelo, nem um bocado de carne apodrecida, nem sequer o mais pequeno dos ossos. Aí, um sopro de vento agitou-lhes as saias. Joana cravou um olhar inquisidor no borracheiro, mas permaneceu sem respostas, pois, ele retribuíra de forma impassível. Ao mesmo tempo, Josefina notou, pelo canto do olho, algo a mexer-se à beira do portal. Era uma velha de olhos cor de amêndoa, envolta em preto, esboçando um leve sorriso. No peito de Josefina, o agnus dei voltou a abrir-se. De súbito, tornou-se cristalino o que em sonhos a ofuscara — aqueles olhos pertenciam à sua querida ama. Assim que a revelação se deu, o espectro virou costas e esfumou-se no cinzento do dia.